Supermarkets' bags will be made from cheese whey

The usual bags and packaging for fruit and vegetables will be banned in 2020. In Valencia the successors are born: biodegradable plastics made with food waste. They arrive this year at the hypermarkets of Portugal.

Por: Raquel Albuquerque (Expresso.PT)

Em quase tudo é um saco como os outros: leve, transparente e resistente para pesar fruta e legumes. Mas na sua essência é totalmente diferente porque é feito com soro de leite, em vez de petróleo. E se à receita forem acrescentadas cascas de amêndoa moídas, este bioplástico torna-se mais consistente e apto para ser moldado em cuvetes ou outras embalagens. É este tipo de alternativas sustentáveis ao plástico que a Comissão Europeia está a financiar e que ainda este ano serão testadas em supermercados portugueses.
Criar um bioplástico a partir de desperdícios da indústria alimentar como o soro de leite — e não produtos como cana de açúcar, batata ou beterraba que se destinam à alimentação humana — era parte da missão do projeto YPACK, financiado pela União Europeia e que junta um consórcio de universidades e empresas, entre as quais a Universidade do Minho, a Universidade Nova de Lisboa e os hipermercados Continente.

Esse bioplástico tinha também de ser biodegradável e compostável, ou seja, capaz de sofrer uma decomposição biológica como os resíduos orgânicos. Mas não bastava criar a receita: o objetivo final era fazê-la sair do laboratório para o mundo real, testar a sua produção numa escala industrial e colocá-la no mercado, garantindo que uma empresa que hoje produza plástico a partir de petróleo seja capaz de aplicar a nova receita mudando apenas a matéria-prima.

Um ano e meio depois do arranque do YPACK, há agora protótipos de sacos, cuvetes e película para embalar fruta, legumes, pão ou carne. Estão no Instituto de Agroquímica e Tecnologia de Alimentos (IATA) em Valência, Espanha, sede do projeto e que o Expresso visitou. Estas alternativas procuram dar resposta à proibição dos sacos de plástico ultraleves e cuvetes de esferovite em Portugal a partir de junho de 2020 (ver agenda). Até ao final deste ano, o Continente quer lançar projetos-piloto para testar estas embalagens nos seus supermercados, mas ainda não há nenhuma data mais concreta para que estejam em utilização.

Cana de açúcar, milho, batata ou beterraba já são usados em bioplásticos à venda no mercado. Mas em comum têm o problema de serem produtos alimentares que teriam de ser cultivados em larga escala para substituir o plástico. “Se for usado um desperdício, não se desviam terrenos da produção de alimentos e tem menos impacto a nível ambiental. É uma forma de reaproveitar um resíduo e prolongar-lhe a sua vida útil”, afirma Carmen Lima, coordenadora do Centro de Investigação de Resíduos da Quercus (ver entrevista). Além disso, permite adotar um modelo de economia circular: de resíduos a saco e de saco a resíduos.

O desperdício escolhido foi o soro de leite, que resulta da produção de queijo. Nas pequenas indústrias acaba até por ser descarregado no ambiente, com impacto negativo devido ao carbono e lactose. “Precisávamos de uma matéria-prima com pouco valor e, por isso, com um custo muito baixo. Escolhemos o soro de leite porque existe em grandes quantidades e a produção de queijo é comum a quase todos os países europeus”, explica Maria Reis, professora catedrática no Departamento de Química da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Universidade Nova de Lisboa, membro do consórcio.

ALIMENTAR BACTÉRIAS A SORO 

O soro de leite serve para alimentar as bactérias que produzem os polímeros, aglomerados de moléculas que funcionam como base dos bioplásticos (conhecidos por poli-hidoxialcanoatos). Há já mais de uma década que a FCT produz polímeros a partir de bactérias, alimentadas com restos de fruta, resíduos de cantinas e restaurantes ou lamas de estações de tratamento, mas faltava dar um passo maior. “Desenvolvemos todo o processo de transformação do soro de leite neste polímero numa escala-piloto e passámos a tecnologia a um parceiro belga para o produzir em escala semi-industrial”, diz Maria Reis.
Criadas as moléculas, define-se a restante receita. “O nosso papel é funcionalizar o polímero, introduzindo óleos essenciais para dar à embalagem propriedades antimicrobianas ou antioxidantes”, explica António Vicente, professor no Departamento de Engenharia Biológica da Universidade do Minho. Por fim, podem ser adicionadas cascas de amêndoa, em pó, para dar consistência. “Pode ser outro resíduo celulósico, mas partimos da casca de amêndoa porque era um desperdício de uma cooperativa de agricultores”, diz ao Expresso José María Lagarón, coordenador do YPACK. Com a receita final traçada, o pó é transformado em grãos moldáveis à embalagem desejada. Um dos problemas dos bioplásticos é o preço, face aos valores muitos baixos de produção do plástico convencional. José María Lagarón garante, porém, que irá mudar. 
“É hoje um obstáculo, mas deixará de ser num futuro próximo.” 

Perante a futura proibição dos habituais sacos de plástico e cuvetes, os supermercados veem-se perante a necessidade de arranjar solução. “O papel não é uma boa alternativa, nem em termos funcionais nem ambientais. E rejeitamos os bioplásticos feitos com produtos que competem com a alimentação humana. Daí o interesse nestes bioplásticos produzidos com resíduos”, defende Pedro Lago, diretor de Sustentabilidade e Economia Circular do Continente.

A outra grande questão é o destino a dar a este plástico bio. Antes de entrar no mercado, é preciso que se distinga do plástico convencional. “Os consumidores têm de saber que destino lhe dar. E precisamos de garantir que os municípios têm capacidade para encaminhar o produto”, diz Pedro Lago.

ECOPONTO CASTANHO 

Estes novos produtos, 100% compostáveis (transformam-se em composto, como o adubo agrícola), serão colocados junto do lixo orgânico, num novo contentor de biorresíduos, castanho, que surgirá em Portugal no próximo ano. O YPACK estima que um saco leve cerca de 15 dias a desaparecer no solo e uma cuvete um mês. Se for parar ao mar, o saco dissolve-se em dois meses e a cuvete num ano, sem deixar microplásticos, explica José María Lagarón, coordenador do projeto.

Se forem despejados no ecoponto amarelo contaminam a reciclagem do plástico convencional. E esse é um dos pontos salientados pelo grupo Jerónimo Martins, dono dos supermercados Pingo Doce, que está internamente a analisar novas soluções embora já permita pesar fruta e legumes sem saco. “Se os consumidores não tiverem informação adequada, terão dificuldade em entender que estes bioplásticos não vão para a reciclagem”, defende.

Acertar os tempos necessários para a sua compostagem é outra prioridade, alerta Carmen Lima, da Quercus. É que se estes bioplásticos levarem mais tempo a degradar-se nas unidades industriais, acabam por ir para aterro.

Arranjar alternativas mais sustentáveis ao plástico não pode, porém, ser justificação para manter os mesmos hábitos de consumo e apenas substituir um descartável por outro. “Sabemos que chegámos a um ponto extremo em que não era dado qualquer valor ao plástico nem havia reutilização. Mas não podemos falar de alternativas sem falar de redução do consumo”, realça Carmen Lima. Levar de casa os sacos para pesar fruta e legumes, por exemplo, já é autorizado em vários supermercados e mercearias. E permitiria poupar mais de uma tonelada de plástico por dia.

AGENDA

JUNHO DE 2020 
Data prevista para a proibição dos sacos de plástico ultraleves e cuvetes de esferovite para pão, fruta e legumes. O projeto de lei foi apresentado pelo partido “Os Verdes” e aprovado por unanimidade no Parlamento, no início de abril, estando agora em discussão na especialidade. Prevê-se que todos os pontos de venda destes produtos tenham de encontrar uma alternativa a estas embalagens, sob pena de ficarem sujeitos a contraordenações e coimas. Também a partir desta data será proibida a comercialização de pratos, talheres, palhinhas, palhetas para o café, copos e cotonetes de plástico, tanto nas lojas como na restauração e serviços públicos.

JANEIRO DE 2021 
Entrada em vigor da proibição de venda de produtos de plástico de utilização única em toda a União Europeia, segundo a lei aprovada pelo Parlamento Europeu. O Governo antecipou esta diretiva em Portugal para entrar em vigor em junho de 2020.

JANEIRO DE 2022 
Implementação da tara recuperável de garrafas de plástico, vidro e metal. Ao devolver a garrafa, o consumidor será reembolsado com o custo da embalagem, incluído no preço que pagou. Até dezembro de 2019, prevê-se que seja implementada uma primeira fase deste projeto, através da colocação de máquinas em algumas superfícies comerciais para que os consumidores devolvam as garrafas de plástico, em troco de um prémio ainda a definir pelo Governo.


O QUE JÁ MUDOU

FIM DOS DESCARTÁVEIS 
A aquisição de plástico descartável já é proibida na Administração Pública, incluindo copos, pratos, taças, talheres, palhinhas, palhetas para café e garrafas (exceto das máquinas automáticas). Já nos supermercados, o Lidl deu o primeiro passo e deixou de vender descartáveis, evitando a entrada no mercado de 12,5 milhões de copos e 5 milhões de pratos por ano.

RECICLAGEM DE SACOS 
Desde 2014 que os sacos de plástico de transporte das compras passaram a ser pagos. Na sua maioria, hoje têm 80% de plástico reciclado. Já existem campanhas de recolha dos sacos, como no Continente, e o Lidl prepara-se ainda este ano para deixar de os vender, evitando assim mais 25 milhões de unidades por ano.

ECODESIGN DE EMBALAGENS 
Rever as características das embalagens junto dos fornecedores permitiu poupar 17 mil toneladas de materiais em oito anos no Pingo Doce. O Lidl também reduziu o plástico nas embalagens de frutos secos, eliminou as películas de plástico das cápsulas de café e reduziu a embalagem de cartão que as transporta. O Continente mudou o material usado nas cuvetes da padaria e reduziu o plástico nas embalagens de pilhas e lâmpadas. QUEIJO FRESCO SEM ‘ANEL’ Retirar o recipiente de plástico (cincho) ao queijo fresco da marca do Continente eliminou 11 toneladas de plástico.

CUVETES DE CARTÃO 
Embalagens de cartão em vez de plástico estão a ser testadas no Lidl. Já o Pingo Doce está a substituir algumas por madeira (como as dos morangos), nos casos em que essa mudança não implique desperdício de alimentos.

COTONETES DE PAPEL 
Substituir por papel o plástico dos bastões dos cotonetes — que por serem erradamente deitados na sanita vão parar ao mar — já permitiu ao Pingo Doce reduzir 25 toneladas de plástico e ao Continente outras 21 toneladas (menos 133 milhões de unidades). O Jumbo também vende e garante que o papel usado tem origem em florestas geridas de forma sustentável.

PALHINHAS ALTERNATIVAS 
Várias cadeias de hotéis têm abolido as palhinhas de plástico, oferecendo alternativas mais sustentáveis. A Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP) tem vindo a apelar à redução de plástico no sector.

VENDA AVULSO 
Comprar fruta e legumes a granel ajuda a evitar as embalagens de plástico (sacos, caixas ou cuvetes). Em parceria com os fornecedores, o Jumbo eliminou 5 toneladas de plástico que envolviam produtos como as alfaces e usa sacos de papel kraft na venda a granel de especiarias e cereais. No Pingo Doce é possível pesar fruta e legumes sem saco e o Continente tem projetos-piloto a decorrer onde os clientes podem usar os seus sacos.

COPOS NOS FESTIVAIS 
O mar de plástico visto no final dos festivais de música — e outros eventos — começou a reduzir-se com os copos reutilizáveis, vendidos com uma ‘caução’ que é recuperada se o copo for devolvido.

QUATRO PERGUNTAS A

Carmen Lima
Coordenadora do Centro de Investigação de Resíduos da Quercus

Este projeto criou um bioplástico a partir de resíduos, biodegradável e 100% compostável. É uma boa solução para substituir o plástico convencional?
Poderá ser a menos impactante para o ambiente. Mas só conseguimos avaliar tudo quando entrar mesmo em funcionamento. Ao ser usado um desperdício, não se desviam terrenos da produção de alimentos, o que tem menos impacto do que usar uma matéria nova. É uma forma de reaproveitar um resíduo e prolongar-lhe a sua vida útil. Se as características deste bioplástico corresponderem aos critérios dos processos de compostagem, então é de facto menos impactante. O problema é que tende a haver um desfasamento entre o número de dias necessários para a compostagem destes bioplásticos e do restante material orgânico. E isso significa que, quando acaba o processo de compostagem, esses materiais têm de ser separados do restante composto — o que obriga a uma triagem com um custo associado — e são encaminhados para aterro. Este problema não é só de Portugal, é da Europa. E por isso está a ser revista a diretiva que regula esta questão.

Como é que se resolve esse problema? 
Em primeiro lugar, os bioplásticos não são um problema do passado, são do futuro e estão a fazer um caminho de evolução, como fizeram outros materiais. Portanto, as entidades de tratamento também têm de se preparar porque, se as pessoas adotarem estes produtos, é preciso arranjar uma forma de lidar com o problema. A solução passa por os produtores acelerarem o processo de degradação destes materiais e as unidades industriais estimarem quanto mais tempo podem alargar os seus períodos de compostagem.

É pior substituir plástico por papel ou vidro? 
Quando se fala em substituir o plástico, é preciso ter cuidado. Um saco de papel com uma película de plástico é pior do que um saco de plástico, porque é compósito e tem de ser separado. É preferível manter materiais simples — só de plástico, de papel ou de algodão — do que compósitos. No caso das lojas que passam a oferecer sacos de papel em vez de plástico, acho que a solução devia ser deixar de oferecer o saco. As pessoas passavam a levar o seu ou a comprarem um, mesmo nas lojas de roupa. Dar o saco faz com que seja descartado mais facilmente. Já o vidro levanta outras dúvidas, até porque faz aumentar o peso de transporte da mercadoria. Deve colocar-se tudo na balança, ver que utilização e destino são dados aos vários produtos e ver o que faz mais sentido. Qualquer que seja a opção, o impacto nunca é negativo.

É suficiente arranjar materiais alternativos ao plástico para reduzir o nível de poluição? 
Não. E não podemos falar de alternativas ao plástico sem falar da redução do consumo. Temos de deixar o plástico para os casos de exceção, como nos hospitais onde está em causa a saúde pública. Mas em épocas festivas, como o Natal ou a Páscoa, os supermercados continuam a pôr louça descartável junto aos produtos alimentares. E há quem faça a ceia de Natal só com descartáveis. Portanto, é preciso uma mudança de hábitos. O plástico nunca vai desaparecer, mas vai diminuir. Além disso, até 2025, temos de aumentar para 65% a reciclagem de todo o tipo de resíduos e, segundo os dados mais recentes da Valorsul, ainda estamos nos 38%.